Travessia Alto Palácio x Serra dos Alves – uma incrível caminhada pela Serra do Cipó

Vamos conhecer uma travessia no coração das Minas Gerais​… relativamente recente, mas que possui uma rica história, biodiversidade singular e atrativos que enchem dos olhos

daqueles que testemunham suas belezas… atraindo aventureiros de ​todos​ os cantos do Mundo.

Travessia Alto Palácio x Serra dos Alves

totem parnacipó

Totem indicativo da Parnacipó. (Foto: Terra Trekking)

A travessia Alto Palácio x Serra dos Alves corta o Parque Nacional da Serra do Cipó de norte a sul, iniciando na Portaria de Alto Palácio, em Morro do Pilar/MG, e finalizando no vilarejo de Serra dos Alves, em Itabira/MG.

O Parque Nacional da Serra do Cipó é atualmente um dos mais importantes santuários da fauna e flora típicos do Cerrado e Mata Atlântica no Brasil. Está localizado próximo à região metropolitana de Minas Gerais, na ​porção sul da Cordilheira do Espinhaço.

O título de “Jardim do Brasil” dado pelo paisagista Burle Marx à Serra do Cipó, em 1950, faz jus a um dos conjuntos naturais mais exuberantes do planeta, que consiste em uma topografia acidentada e uma grande quantidade de nascentes que formam diversos rios, cachoeiras, montanhas, cânions e cavernas de excepcional beleza natural.

tropeiros

Tropeiros e suas tropas

Essa travessia remonta da época do Tropeirismo, surgido a partir da segunda metade do sec. XVIII. Por conta das estradas precárias e perigosas entre as localidades, os Tropeiros utilizavam essas trilhas nas montanhas e serras para se deslocar e comercializar querosene, tecidos, peixe salgado, sal, roupas, vasilhames e outros produtos entre as várias regiões da capitania de Minas.

Essas tropas levavam várias semanas ou até meses para chegar ao destino, enfrentando intempéries e animais selvagens. Com sua coragem e destemor, forjaram a história e a ​riqueza nas trilhas de nossas Minas Gerais.

Atualmente​, esses caminhos são percorridos sobretudo por aventureiros ligados ao ​trekking de travessias​, já que a atividade dos tropeiros caiu em declínio por conta das estradas de ferro do século XIX e das rodovias do século XX.

PORTARIA ALTO PALÁCIO

portaria alto palácio

Portaria de Alto Palácio

Esse é o ​início​ de nossa aventura: ​Portaria Alto Palácio​. A primeira sede do Parque Nacional da Serra do Cipó, inaugurada na mesma época do decreto de criação do Parque, em setembro de 1984. Está situada no município de Morro do Pilar, junto à rodovia MG 10.

Daqui até o primeiro ponto de apoio, onde vamos montar acampamento, ​são 18km​, num ganho altimétrico acumulado de 486 metros. E nessa caminhada, vamos passar por Campos de Altitude, Florações Rochosas, uma Lapa de pinturas rupestres, e pelo ​Vale do Travessão​.

No início de nossa caminhada, normalmente atravessamos ondas de “​corrubianas”​, que impossibilitam uma visão plena do cenário nesses campos de altitude.

Corrubiana é um fenômeno meteorológico observado em algumas das regiões montanhosas do Estado, e que consiste na baixa demasiada da temperatura, aparecendo então uma neblina muito densa que se estende até o solo e soprando um vento gelado. Tem quem a chame também de “Russo”! É sob esse tipo de fenômeno que muita gente costuma se perder nos trechos altos da Serra do Cipó. Você não vê o colega a dois metros de distância, e o forte vento abafa o som dos passos!

Floração rupestre (Foto: Terra Trekking)

Nos Trechos de descida da Serra do Alto Palácio rumo às pinturas rupestres, podemos observar muitas nascentes e drenagens que dão origem ao córrego Capão da Mata, que forma o ribeirão Bocaina e que, mais à frente, farão surgir o ​rio Cipó​.

Veremos ainda algumas florações rupestres. Em torno delas, grupamentos de lâminas de rochas quartzíticas. Sempre voltadas para o oeste, é um fenômeno iniciado há vários milhões de anos, estimulado por sucessivos períodos glaciais.

LAPA DOS VEADOS

Lapa dos Veados

Lapa dos Veados (Foto: Terra Trekking)

Após alguns quilômetros de caminhada, nos deparamos com a Lapa dos Veados​. Aqui são encontradas pinturas rupestres datadas de aproximadamente 8 mil anos, possivelmente a mais antiga expressão gráfica da Serra do Cipó.

Nela estão presentes figuras de animais, como por exemplo, o veado campeiro, que foi caçado pela população ameríndia, até a sua extinção nessas terras.

VALE DO TRAVESSÃO

Continuando a histórica travessia, nos deparamos com um dos principais cenários da nossa aventura: o assombroso e belo Vale do Travessão!

O Travessão é um divisor de águas, das bacias dos rios São Francisco a ​Oeste​ e Rio Doce a ​leste​.

É um ponto de passagem muito antigo, foi bastante utilizado na época em que estes caminhos eram percorridos por tropeiros, que abasteciam a região da Estrada Real com suprimentos e evitava que as tropas tivessem que descer e subir os desfiladeiros do​ Vale do Rio do Peixe​, e do​ Vale da Bocaina​.

Vale do Travessão
O assombroso e belo Vale do Travessão (Foto: Terra Trekking)

É sem dúvida, uma das mais peculiares obras da Natureza, moldada por milhões de anos e uma infinidade de fenômenos geológicos!…

Casa de Tábuas
Casa de Tábuas, ponto de apoio do primeiro dia.

E a caminhada continua, passando por vales, cachoeiras, um campo de altitude propício para contemplação… até chegarmos no final da tarde, à Casa de Tábuas.

E o Sol vai se pondo lentamente atrás da Serra, enquanto as barracas se erguem nesse lugar ​mágico​!

Após o Café da manhã, rapidamente tem início um novo dia de caminhada e descobertas. Nesse dia serão 11km até nosso objetivo: ​o abrigo dos Currais​. A caminhada será relativamente leve, com um ganho de elevação de 373m.

CANELA DE EMA GIGANTE

Canelas de ema Gigantes

Canelas de ema Gigantes

Nossa primeira surpresa pelo caminho, é o insólito Jardim de Canelas de Ema Gigantes.

Estudiosos e botânicos afirmam que uma canela de ema cresce em média 1 centímetro por ano. Então podemos afirmar que esse jardim no meio de nossa travessia Parnacipó nasceu ​antes do descobrimento do Brasil!

Com aproximadamente 5 metros de altura, a Canela de Ema Gigante é um tipo de veloziácea bastante endêmica, ou seja, que você só encontra nas formações quartzíticas da Cadeia do Espinhaço Mineiro.

E aqui, nos campos rupestres da Serra do Cipó, elas apresentam todo o seu esplendor!

PICO DO ERNESTO

Pico do Ernesto

Pico do Ernesto ao fundo (Foto: Terra Trekking)

E nossa marcha prossegue.

Vamos avançando, mas um ponto em particular detém as nossas atenções. É o Pico do Ernesto, ou Pico do Curral, ponto culminante do dia, com 1.680m de altitude. Do cume se avista uma infinidade de serras e picos, como o Pico do Breu, a Serra do Caraça, o mirante da Serra dos Alves, alguns maciços em Cabeça de Boi (Itambé do Mato Dentro/MG) e o Pico do Itambé (Serro/MG).

CURRAIS

Após 5 horas de caminhada, aqui chegamos: segundo ponto de apoio da Travessia Parnacipó. ​Os Currais, ou Casa dos Brigadistas​. Estamos no limite entre os municípios da Serra do Cipó e Itabira. Nossa janta e o café de amanhã serão nesse lugar.

Assim como a Casa de Tábuas, também é uma construção anterior à criação do Parque, que servia de base de apoio aos criadores de gado bovino que utilizavam os altiplanos da serra como pastagem.

Aqui a gente arma acampamento. É um local relativamente plano e gramado, que fica próximo ao córrego Mutuca. Diga-se de passagem, esse veio d’água encontra com o Córrego da Garça, e juntos formam a monumental ​cachoeira das Braúnas​, alguns quilômetros adiante.

Uma queda d’água impressionante! Uma das mais imponentes cachoeiras da região do Cipó.

Cachoeira das Braúnas

Cachoeira das Braúnas (Foto: Terra Trekking)

Amanheceu e é hora de recomeçar nossa jornada. A caminhada nesse dia também nos revela encantadores cenários.

Dos Currais até a comunidade de Serra dos Alves são mais 12km de caminhada. O início é relativamente plano, e após metade do trajeto, começamos a descer, por um caminho mais acidentado e erodido.

PICO DA DALINA

Esse pico em formato de barbatana é o Pico da Dalina. Atrás dele, fica o Campo da Carça, um lugar surpreendente, na divisa entre Itabira e Nova União. E se caminharmos um pouquinho

mais naquela direção, vamos nos deparar com a Cachoeira das Braúnas!

Mais à frente dá pra avistar o pico da Serra dos Alves, nosso ponto final da travessia.

BOCA DA SERRA

Após uma hora e meia de caminhada, avistamos o Cânion Boca da Serra. O morrote que se sobressai de um dos paredões do cânion é o mirante Boca da Serra, onde se tem uma vista privilegiada para o interior do vão rochoso.

Lá embaixo, mais adiante, há uma trilha que chega até a Cachoeira da Luci e a Ponte de Pedra – pontos de interesse de muitos trilheiros.

Mais à frente avistamos umas casinhas abandonadas no meio da serra. Essa região toda foi comprada pela mineradora Vale, como medida de compensação ambiental

CACHOEIRA DOS CRISTAIS

Pouco antes de terminarmos nossa aventura, pausa para descanso e banho, em uma água gelada e revigorante: é a Cachoeira dos Cristais.

Daqui até o povoado de Serra dos Alves são mais uns 40 minutos de caminhada tranquila, onde vamos atravessar o Rio Tanque por meio de uma ponte pênsil.

SERRA DOS ALVES

Pronto. Fim da jornada!

Chegamos em Serra dos Alves, um vilarejo pertencente ao município de Itabira.

Esse povoado pacato ​cercado por cachoeiras e montanhas​ e de forte apelo turístico surgiu por volta de 1850, com alguns bandeirantes que vieram para a região em busca de ouro e cristais.

No centro do povoado está a Capela de São José, datada de 1860, cujo interior possui algumas relíquias do velho santeiro Alfredo Duval, personagem presente em poemas do ilustre itabirano Carlos Drummond de Andrade.

TRAVESSIA ALTO PALÁCIO X SERRA DOS ALVES

Após mais de 40km de caminhada em três dias de aventura, o que podemos dizer desse trekking cortando a Serra do Cipó?

Podemos afirmar que estivemos em uma região ímpar, de biodiversidade, de história, de encanto e de uns bons desafios.

Em alguns momentos da travessia, ela é mais cansativa, mas rapidamente compensada pela vista dos belos cenários, ou pela prosa com os amigos, em que você aprende ou ensina algo, ou simplesmente joga conversa fora.

É uma aventura em que nos reencontramos, ouvimos nossos passos, nossa respiração, conversamos internamente e nos decidimos a buscar um novo caminho.

Um caminho com mais sentido, com mais plenitude e mais Qualidade de Vida!

Fonte: Terra Trekking

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